Evandro Mota – Consultor Motivacional e “Campeão de Tudo!”

Flamengo x Botafogo – Uma rivalidade bem intensa!
01/04/2017
Jogos do Brasil – CBF e Globo estudam formas de transmissão
01/04/2017

O entrevistado Evandro Mota, é alguém que nosso portal faz questão de aplaudir de pé. Tudo que tem feito pelo esporte, dispensa introduções. Ele é consultor motivacional e nos ensina um pouco da arte de liderar, das formas de preparo e gestão de grupos, mencionando ainda algumas das referências dos esportes com quem trabalhou.

Certamente se você trabalha, assiste ou gosta de qualquer modalidade, vale a pena ler atentamente!

É notório que suas funções no futebol são únicas, falamos isso, porque além do seu talento, você não é somente um motivador, nem se classifica como psicólogo esportivo. É algo ainda mais agregador. Pode nos contar do cotidiano de suas funções?
Desde 1978, quando ainda era atleta (fiz meu curso de engenharia PUC-RJ com bolsa de estudos jogando futebol de salão), o conteúdo e rotina do trabalho foram se alterando em função dos aperfeiçoamentos agregados.
No início, a partir de uma palestra sobre Qualidade Total que assisti na faculdade, comecei a experimentar em mim mesmo alguns daqueles princípios. Fui experimentando, aperfeiçoando e me beneficiando com a melhoria de desempenho.
Até hoje, passados 38 anos e com a experiência aplicada em vários esportes, equipes e seleções no Brasil e no exterior, não utilizo a mesma fórmula fechada para todos os grupos que me chamam para colaborar na melhoria de desempenho de seus integrantes – seja na área esportiva, empresarial ou educacional. É fundamental, para que o trabalho alcance os resultados esperados, que o conteúdo e a rotina desenvolvida sejam contextualizados para aquele ambiente e para os respectivos objetivos.


Já houve tempos em sua vida que trabalhou “fixamente” com um clube, mas prestava trabalho a outros times também. Neste caso, quais são as formas de abordagem e estratégias, se compararmos um local onde atua permanentemente com um provisório?
Em algumas ocasiões tive a oportunidade de trabalhar, na mesma competição, em equipes diferentes. Sempre que isto aconteceu foi com o conhecimento de todos os envolvidos. Tal situação mostrava a confiança que sempre tiveram no meu trabalho profissional, pois todos sabiam da confidencialidade que exercito e que é um ponto crucial para a confiança mútua que tem que existir entre todos os envolvidos no processo.
Com relação a simultaneidade de trabalhos quero citar duas situações que me marcaram muito. A primeira foi nos Jogos Olímpicos de Atlanta (1996) em que estava trabalhando, desde bem antes das Olimpíadas, com duas duplas de vôlei de praia feminino – Mônica e Adriana e Sandra e Jacqueline. Esta foi a final daquela Olimpíada.
A segunda situação, e que não foi tão agradável, foi a experiência que passei na Copa do Brasil de 2005. Estava desenvolvendo o trabalho de Mobilização de Grupo desde a Pré-Temporada no Fluminense (com o meu amigo Abel Braga).
Quando a Copa do Brasil estava para iniciar, outro amigo técnico com quem eu havia trabalhado ainda quando era jogador – Vagner Mancini – me pediu para ajudar na preparação do Paulista de Jundiaí. Fluminense e Paulista estavam em chaves opostas e dificilmente se cruzariam. A final daquele ano foi exatamente entre Fluminense e Paulista.


Sua experiência é vasta em outros esportes, além do futebol. Quais são as diferenças e semelhanças na hora de desenvolver trabalhos e dinâmicas para esses grupos de diferentes modalidades? Existe algum esporte que é mais difícil?
As diferenças existem não somente entre os esportes, mas na mesma modalidade entre as equipes e seus integrantes. Diferenças de objetivos, de realidades, de dificuldades a serem superadas e de mentalidade dos seus comandantes e comandados.
Tudo isto tem que ser levado em consideração na hora de se desenvolver um planejamento e as respectivas abordagens e intervenções no grupo de trabalho. Quanto aos trabalhos desenvolvidos nos diferentes esportes, duas coisas são básicas para que os resultados da Mobilização de Grupo possam surgir: entender os códigos daquele esporte e realizar uma boa contextualização do conteúdo.
Até hoje já tive a oportunidade de colaborar na preparação de atletas de futebol (profissional e formação – equipes e seleções), vôlei feminino e masculino (equipes e seleções), basquete feminino e masculino (equipes e seleções), vôlei feminino de praia, natação, maratona, tiro ao alvo, triátlon (masculino e feminino) e vela. Cada situação tem as suas dificuldades específicas, mas todas têm em comum o lado humano que visa ser desenvolvido para que, como consequência, ocorra também a melhoria do desempenho.


Seu trabalho foi muito bem aceito em Portugal, onde alcançou grande sucesso no Benfica e no Sporting. Quais as diferenças de mentalidade dos europeus para os Sul Americanos? Isto afeta ou modifica sua participação nas atividades e intervenções?
Os meus últimos quatro anos foram em Portugal. Tive o privilégio de trabalhar nos dois dos maiores clubes – Sport Lisboa e Benfica e Sporting Clube de Portugal. Foram 7 títulos nacionais, 4 vice-campeonatos portugueses e 2 vices europeus na Liga Europa.
Trabalhei com atletas de 23 diferentes nacionalidades e constatei mais denominadores comuns do que diferenças.
O que une os atletas de alto rendimento é a busca incessante pelo aperfeiçoamento. Os atletas de alto nível decidem pagar o preço para conquistar os seus objetivos individuais e coletivos.
A maior parte deles entende que as conquistas coletivas é que geram as conquistas individuais. E os sul-americanos que pude trabalhar, tanto na Europa quanto aqui no Brasil, quando são despertados para esta constatação, também se alinham a este objetivo e se beneficiam desta mentalidade vencedora.
Outra constatação que trago comigo ao longo de todos esses anos é que a mentalidade de uma equipe é o resultado do raciocínio de seu comandante. É isto que mais influencia a minha participação ao longo do processo.


Evandro Mota, são 38 anos nessa atividade, participação em títulos de Copa do Mundo, Libertadores, Campeonatos Nacionais. Tem algum trabalho que seja “mais” marcante para você? Algum momento inesquecível dentro dessas histórias?
Sinceramente, todos os trabalhos foram marcantes e deixaram ensinamentos.
Não só os títulos, mas também muitas situações de dificuldades superadas, como na permanência na Série A do Cruzeiro em 2011 onde no último jogo do Campeonato que decidia a nossa permanência, fizemos história aplicando a maior goleada dos encontros (6×1) contra o maior rival, e permanecemos na elite do futebol brasileiro.
Há muitas histórias de superação em conquistas nas Séries A, B e C. Ao invés de citar o trabalho que mais marcou, vou citar uma data muito especial para mim. Ela me leva a lembrança de dois trabalhos que me marcaram muito e que comemoro todos os anos: 17 de dezembro: Foi nesta data que em 1995 o Botafogo se tornou Campeão Brasileiro da Série A e em 2006 o Internacional conquistou o Mundial de Clubes.

O futebol é um meio “fechado”, há pessoas vaidosas ou contrárias a outros tipos de abertura que podem dificultar o seu trabalho, justamente por ser diferente daquilo que encontramos. Essa resistência ou “pré-conceito”, existe?
Já enfrentou essa dificuldade?
O ambiente do futebol apenas reflete o ambiente do mundo em que vivemos. Nada além disso. Por desenvolver trabalhos em outras áreas posso afirmar isso com toda a convicção.
O que muda em cada ambiente são os códigos e isso precisamos estar conscientes e atentos. As mudanças ou novidades geram estresse em qualquer meio, mas quando você utiliza boas estratégias para mostrar que o trabalho como o de Mobilização de Grupo foi concebido para facilitar a vida das pessoas e com o objetivo de melhorar o desempenho, o cenário de resistência a novidades diminui. Repare que afirmei que ele diminui e não que é eliminado. A melhor maneira de eliminar a desconfiança é quando o grupo começa a constatar os resultados. Você tem que entregar o produto que prometeu. Se não for capaz de concretizar o que foi prometido, já era …


Trabalhando com diferentes tipos de times e objetivos, desde rebaixamentos até sonhos de conquistar Mundiais, qual desses ambientes é mais difícil de se trabalhar? Existem alguns tipos de “armadilhas” como desmotivação, acomodação ou entusiasmo exagerado etc?
Todos os ambientes têm as suas dificuldades e desafios específicos. O segredo, se existe algum segredo, é saber identificar e diagnosticar bem cada um desses desafios específicos e conseguir utilizar os conhecimentos, procedimentos e estratégias conhecidas para se alcançar os objetivos traçados.

Poderia mencionar alguns dos treinadores que já trabalhou? Tinha algum deles cuja sinergia consigo era maior?
Posso afirmar que TODOS os treinadores com quem tive o privilégio de trabalhar deixaram as suas valiosas contribuições para o atual estágio do treinamento de Mobilização de Grupo.
Alguns, por ter trabalhado a mais tempo, deixaram legados maiores, mas todos foram importantes. Alguns das dezenas de treinadores com quem trabalhei e aprendi: Zagallo, Parreira, Jorge Jesus, Paulo Autuori, Abel Braga, Tite, Cuca, Dunga, Levir Culpi, Caio Júnior, Oswaldo de Oliveira, Vagner Mancini, Ricardo Gomes, Josué Teixeira, Vadão, Marcelo Oliveira, Jorginho, Geninho, Nelsinho Baptista, Edinho, Lazaroni, Márcio Fernandes, Joel Santana, Ivo Wortmann, Pepe, Mário Sérgio, Andrade, Valdemar Lemos, Jair Pereira, Antônio Clemente, Otacílio Gonçalves, Carlos Alberto Torres, Giba, Carlinhos, Hélio dos Anjos, Carlinhos, Cabralzinho, Renato Trindade, Gerson Andreotti, Carbone, Nelson Rodrigues, Valdir Espinosa, Márcio Araújo, Marinho Peres, Guilherme Macuglia, Gallo, Marcus Vinícius, Ricardo Pinto.


Em específico, gostaríamos de perguntar sobre Jorge Jesus. Ele é um treinador diferenciado, está entre os maiores do Mundo. Quais são as características de um técnico deste nível? Quais são seus diferenciais e segurança para encarar uma “chuva” de comentários a cada partida, positivos ou negativos?
A melhor maneira de não ser afetado pela “chuva” de comentários, sejam positivos ou negativos, é o treinador ter confiança plena no seu trabalho e estar realmente focado nele. E isso o Jorge Jesus tem de sobra.
Como você bem disse, é um dos melhores treinadores do mundo na atualidade. O seu conhecimento sobre futebol, a sua tecnologia de treinamento e o método muito especial de montar equipes e desenvolver os atletas o tornam único.
Jorge Jesus é o treinador mais vitorioso da história do S.L. Benfica. Tive o prazer e o privilégio de acompanha-lo ao longo dos últimos quatro anos. Sua paixão pelo o que faz e a sua competência o tornam reconhecido não só entre os treinadores europeus, mas também entre os seus atletas e seus ex-atletas.


Talvez, o momento mais difícil para um atleta seja a decisão do Campeonato de pontos corridos da forma como ocorreu o Campeonato Português. Um gol no minuto 92′, colocou o Porto em vantagem, pois mais uma vitória confirmaria o título. Entretanto, era decorrida a Jornada 29 de 30, além da invencibilidade na Liga ter terminado naquele momento. Como é a melhor forma de agir para tentar “reconstruir” o aspecto dos indivíduos?
O futebol proporciona algo que nem sempre a vida dá. No futebol podemos num curto espaço de tempo passar por situações análogas e ter a chance de reescrever uma história. E foi com esse pensamento que superamos no Benfica uma temporada em que perdemos finais de competições muito importantes e no ano seguinte conquistamos todas as competições nacionais.

Dentro da individualidade, mesmos nos grandes grupos, você estuda cada jogador para realizar uma abordagem mais personalizada e específica?
O meu foco é sempre o grupo. Tenho consciência que qualquer intervenção deve ser dirigida para a massa crítica daquele grupo. Quando ela é atingida o processo é desencadeado. Isso não impede de, em situações excepcionais, algumas abordagens individuais sejam efetuadas.

Sabemos que em grandes grupos, muitas vezes existe uma disputa interna pela liderança, as vezes existem os líderes negativos. Como podemos evitar esse enfrentamento, seja entre os próprios jogadores ou entre eles e a comissão técnica? Qual a forma de auxiliar para a manutenção de um bom ambiente de trabalho?
No Treinamento de Mobilização de Grupo partimos de algumas premissas que são colocadas logo no início do trabalho. Uma delas é que as conquistas coletivas geram benefícios individuais. Quando esta mentalidade é bem estabelecida no início o próprio grupo intervém na correção dessa postura se algum integrante começa a sair deste alinhamento.
O bom ambiente de trabalho é fundamental e por isso esse é um dos quesitos de maior importância do monitoramento que faço ao longo do processo.


Existe algum conselho ou formas de preparo em seu cotidiano para esse misto de sentimentos e emoções que é o futebol no caso dos atletas? Quais seriam esses caminhos, para que o atleta mesmo tivesse alguns cuidados pessoais na sua preparação?
Os exemplos inspiradores dos grandes campeões mostram que assumir a responsabilidade pela sua própria preparação é a melhor maneira de termos um grupo de atletas mobilizados e comprometidos com a excelência.
Cada um fazendo o que tem que ser feito, mesmo sem ter ninguém vigiando e repreendendo é o maior sinal de que o trabalho de conscientização está sendo bem desenvolvido naquele ambiente. Se não for este o nível, é importante que os que comandam o processo assumam as suas responsabilidades e procurem alterar suas estratégias para que o ambiente seja realmente voltado para a excelência.
Não adianta ficar culpando e punindo repetidamente os comandados. Se uma mesma situação se repete é sinal de que algo precisa ser feito diferente no nível do comando.


No caso, você já trabalhou com categorias de base a profissional. As diferentes idades exigem tipos de abordagens diferentes? De Quais tipos?
De alguns anos para cá, em razão de diversos fatores, os atletas estão chegando cada vez com menos idade aos profissionais. Isso tem um reflexo direto no perfil dos atuais grupos de atletas de futebol. Tanto na formação, quanto nos profissionais para que estejam habilitados para vivenciar as duas principais gerações de jogadores – gerações Y e Z. Essas gerações são bem diferentes das que eram formados os grupos do futebol de alguns anos.
Um exemplo prático das diferenças no vestiário: antigamente quando você se aproximava de um vestiário sabia logo se ele estava vazio ou com os atletas. As resenhas corriam soltas. Hoje você se aproxima de um vestiário e não sabe, até entrar lá, se está vazio ou tem gente. Cada um com o seu smartfone e quase nenhuma resenha.
Sugiro a todos os que lidam com futebol, seja na formação ou nos profissionais, a se aprofundarem um pouco na Teoria das Gerações. A Sociologia vem desenvolvendo estudos bem interessantes sobre as atuais gerações, como lidar com elas e, melhor ainda, como tirar o máximo comprometimento deles.


Dentre os vários jogadores que você conviveu, é possível destacar um ou mais, com uma grande segurança, liderança e fortaleza dentro de um grupo?
Em todos os grupos que trabalhei encontrei, com raríssimas exceções, três tipos de líderes: os líderes naturais, os líderes oficiais e os líderes técnicos. Todos eles são importantes e, se forem bem trabalhados, pode ser um fator muito bom para o fortalecimento do grupo. Seria uma injustiça destacar alguns aqui.

Agradecemos Evandro Mota pela entrevista, auxílio e ensinamentos. Simplesmente o campeão de tudo, como homem e como profissional referência no Mundo do Rendimento!
Conheça o site oficial de Evandro Mota!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *