Bruno Gabrieli – Analista de Desempenho da Argentina

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A entrevista desse mês é com um profissional talentoso que tem feito história na Argentina. Na verdade seus dons são uma mescla do que o futebol tem de mais bonito, um misto de samba e tango ou uma junção de Brasil – Argentina. Bruno Gabrieli é o Analista de Desempenho da AFA, seleção Sub-20 da Argentina e nos ensina sobre as funções desta nova profissão, as atividades diárias e como implementou a análise de vídeos da Argentina, contando ainda sobre o desenvolvimento do futebol de uma seleção pautado em modelos de jogo!

Bruno Gabrieli parabéns pela sua conquista. O primeiro estrangeiro a trabalhar na AFA – Associação do Futebol Argentino, na função de Analista de Desempenho da Categoria Sub-20. Certamente que pelo coração e profissionalismo você não pode ser considerado alguém de fora do país.
Antes você era formado em fotografia, como surgiu a ideia de entrar para o futebol e a respectiva preparação para o seu merecido sucesso?
Sou Bacharel em fotografia na Faculdade Senac e pós graduado em História da Cultura na FFLCH – USP.
Trabalhei 12 anos com fotografia, fotojornalismo, moda, publicidade. Estava cansado do meio, e queria fazer algo que me apaixonasse outra vez, fui estudar futebol.
Em São Paulo tem uma faculdade com um curso de Tecnologia em Futebol – Facudade Drummond no Tatuapé.
Quando me formei, decidi trabalhar com futebol em Buenos Aires, acredito que as Categorias de Base são as melhores escolas, tanto para técnicos, como para jogadores.
Um grande professor meu, Wagner Martinho, que havia trabalhado com Passarella e Sabella no Corinthians me colocou em contato direto no River Plate para fazer um estágio.


Você passou por River Plate, Argentino Juniors e atualmente seleção Argentina. Em um primeiro momento houve qualquer receio por ser brasileiro ou as portas foram abertas de “cara” ao seu trabalho?
Quando cheguei no River Plate dei o “azar ou sorte” que estava trocando toda a Coordenação do Futebol Juvenil. Estive ali pouco tempo (3 semanas).
O novo coordenador era Ex-coordenador do Argentinos Juniors, então ele me mandou para lá, para seguir meu estágio.
Chegando no Argentinos Juniors tive a sorte de desde o primeiro dia, trabalhar com Raul Sanzotti, um grande técnico da base. Com ele aprendi muito, e crescemos juntos.
No começo rolou desconfiança de alguns, mas as pessoas que iam conhecendo meu trabalho e minha vontade de aprender e crescer começaram a apostar em mim. Como auxiliar do Raul fomos subindo de categoria.
Quando cheguei, eu vi que ninguém fazia um bom trabalho de Análise de Vídeo. Comecei a fazer análises exclusivas para Raul Sanzotti em nossa categoria.
Raul levou o material ao coordenador, Hugo Tocalli (Técnico consagrado na Seleção Argentina de base, junto com Jose Pekerman), que gostou do trabalho e me colocou como Analista de toda a base e auxiliar técnico do Raul de forma oficial, deixou de ser um estágio.


No Argentino Juniors você chegou a ser responsável pela categoria Sub-15. Esta experiência como treinador foi positiva?
Em 2015 Fernando Batista (irmão do Chechi Batista, Campeão do Mundo em 1986), Coordenador do Argentinos Juniors me deu a oportunidade de dirigir a Octava División, que eram garotos nascidos em 2000. Fui muito bem, saímos vice-campeões, perdendo apenas 1 jogo, e os garotos evoluíram muito.

Como é o seu cotidiano e principais funções na seleção da Argentina?
Na Seleção podemos dividir em duas etapas: A preparação para o Sul Americano, onde eu gravava os treinos e os analisava durante a semana, além preparar relatórios dos rivais que iríamos enfrentar.
Nos finais de semana Ubeda, Batista e eu, nos dividíamos para assistir o máximo de jogos possíveis para buscar jogadores para serem convocados e avaliados.
No Equador (onde ocorreu o Sul Americano Sub-20), na competição, o trabalho é diferente, porque jogamos muitas partidas em sequência, logo há muito trabalho: Análise do próximo rival, edição da nossa última partida, preparar vídeos motivacionais e outros detalhes que fazem parte do trabalho.

Dentre os trabalhos realizados, você ministrou aulas na escola central da Associação de Técnicos do Futebol Argentino. Pelo bom trabalho da AFA, cada vez mais os brasileiros admiram os conteúdos ensinados. Você poderia falar sobre o conteúdo e qualidade deste material?
Eu dou aula de Análise de Desempenho na Escola Central da ATFA (Associación de Técnicos del Fútbol Argentino.
O Curso da ATFA é muito bom, completo, tanto na parte teórica, como pratica. Os técnicos saem bem preparados do curso. Vemos muitos argentinos triunfando por todo o mundo.


Hoje, qual o caminho para se tornar treinador na Argentina, incluindo os cursos e estágios obrigatórios?
Primeiro é obrigatório ter o curso da ATFA, sem esse certificado não é permitido trabalhar. O módulo presencial agora dura 3 anos.
Ao término do primeiro ano já é possível trabalhar com futebol infantil, no fim do segundo com futebol juvenil e profissional. Por fim, no terceiro ano, o aluno recebe a nova licença Conmebol, que é válida para trabalhar em todo o mundo, reconhecida por todas as federações filiadas a FIFA.
Normalmente o técnico dirige em categorias inferiores, participa de um processo de aprendizagem, e depois vai para o profissional.
Aqui é difícil um estrangeiro chegar a dirigir profissional na Primeira Divisão, não são muitos os técnicos de fora. A maioria são uruguaios que jogaram aqui, assim como o Engenheiro Pelegrini. Não foram muitos brasileiros, o caso mais emblemático foi o Vicente Feola, que depois de ser Campeão do Mundo dirigiu o Boca Juniors.
Aqui a figura do ex-jogador é muito valorizada, são pouquíssimos os treinadores que não foram jogadores conhecidos.
No Brasil isso é diferente, existem muitos técnicos que nunca jogaram, inclusive Campeão do Mundo, como o Parreira.
Culturalmente, o atleta argentino não respeita muito quem não jogou, é cultural. Uma exceção é o exemplo de Ariel Rolland, o atual técnico do Independiente de Avellaneda, ele era técnico de Hockey sobre grama.


Vivenciadas as situações de Modelo de Jogo no Argentino Juniors e no River Plate, onde realizou estágio, acredita que em geral o futebol da Argentina possui uma boa progressão para o aprendizado e detecção de talentos?
Sim, para mim é o melhor país em formação de jogadores. O Brasil tem jogadores com muito talento, mas com pouco conhecimento tático, tanto que os jogadores brasileiros sofrem para adaptar-se em outras escolas.
O atleta brasileiro quando é a “estrela” de um elenco tem o time jogando em sua função. Há muitos exemplos que brilham fora do país natal também, mas sofrem em campo quando precisam ser um “trabalhador tático“.
Existem exceções, mas muitos voltam ao Brasil culpando a adaptação, a comida, o técnico etc…
Já o jogador argentino aprende tática desde de muito pequeno – 7 anos de idade na prática no campo de 11.  Eles desenvolvem os movimentos específicos de sua posição, enquanto o garoto brasileiro nessa idade está jogando futsal, desenvolvendo sua técnica individual. Quero esclarecer que não estou dizendo sobre certo ou errado, apenas dando minha opinião sobre as diferenças de escola.
Um atleta argentino aos 20 anos já tem um repertório tático muito grande, e pode se adaptar em qualquer futebol do mundo, sem ser o protagonista.
Se somar isto com a formação do técnico argentino que é melhor, ele conhece mais de tática que o brasileiro.
Importante salientar que Isso está mudando, pois os técnicos brasileiros estão se preparando cada vez melhor, mas isso é um processo que leva tempo, até chegar ao mesmo nível de preparação de um comandante argentino, espanhol ou português, para mim as 3 melhores escolas de treinadores do mundo.


Ainda nessa situação de Modelo de Jogo, existe proximidade dos conceitos entre as categorias de base e a idade principal?
Sim, os conceitos aplicados na base são os mesmos que um jogador vai utilizar no profissional, desde os aspectos técnicos, passando pelos táticos e psicológicos. Desde pequeno já se ensina um zagueiro a fazer uma antecipação da mesma forma que ele utilizará no profissional, por exemplo ou um movimento de cobertura, para falar de tática.
Da mesma forma se trabalha o aspecto psicológico, desde pequeno inserimos na mentalidade dos garotos que para chegar no profissional é preciso se esforçar muito e também é preciso respeitar e “dar a vida” pelo clube que te dá a oportunidade de se desenvolver como jogador.

É possível realizar um guia norteador em comum também nas seleções de base? Quais as diferenças, já que estes garotos não treinarão juntos a maior parte do ano por pertencerem a clubes diferentes?
Essa é a diferença em relação ao Brasil, porque aqui se treina todo o ano com a Seleção. Como a maioria dos jogadores de nível pertencem aos clubes de Buenos Aires, as categorias da Argentina (Sub 20, Sub 17 e Sub 15) treinam o ano todo.
As rodadas do futebol argentino são nos finais de semana, não se joga de quarta, assim os jogadores que estão na Seleção treinam segunda, terça e quarta pelo país, e quinta voltam para os clubes.
Os times que vão jogar na sexta ou sábado, recebem seus jogadores já na quarta feira, mas a Seleção pode trabalhar pelo menos dois dias da semana, objetivando conceitos e entrosamento.


Muitos analistas hoje, ficam “trancados” na sala, vivenciando apenas computadores e relatórios, entretanto você vivencia o dia a dia do campo e participa dos treinamentos, o que é realmente maravilhoso. Na sua opinião, qual a importância do Analista ter também a vertente de ser um dos auxiliares do técnico, participando de treinos ativamente?
Eu sou da opinião que o analista tem que ser técnico, tem que ser formado como treinador. Primeiro para que ele conheça bem todos os conceitos técnicos e táticos de todas as fases do jogo, depois para que ele saiba trabalhar um time, conhecendo o que é possível ou não exigir desse grupo de jogadores.
Acredito que o analista tem que ser parte integral do corpo técnico, participando das decisões e dos trabalhos em campo. Como exemplo, um dos trabalhos que fazemos no Sub 20 é um reduzido de posse de bola que eu propus ao técnico e seu auxiliar, para resolvermos problemas detectados em jogos.
Como tenho uma relação de plena confiança com o técnico e seu ajudante, eles me escutam, e quando conveniente aplicam os trabalhos que eu proponho, afinal conheço o modelo de jogo e uma das minhas funções é encontrar erros e virtudes de funcionamento no nosso time. Caso eu não fosse técnico e nunca tivesse dirigido, não teria o conhecimento, nem a segurança de propor um trabalho para esse aspecto específico que identifiquei.
O Analista que não vai para o campo, para mim não realiza um trabalho pleno.

1 Comentário

  1. Rafael disse:

    Ótima entrevista.

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