Gustavo Leal, o técnico do Fluminense Sub-17 fala sobre Xerém e o legado para o futebol

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Gustavo Leal é o entrevistado desse mês. O técnico do Fluminense Sub-17 contou de forma exclusiva sobre o cotidiano de treinamentos em Xerém, trabalhos multidisciplinares, a detecção do talento e o fator de desequilíbrio dos atletas brasileiros.

Conheça os pilares da filosofia de jogo do Flu e veja a preocupação em formar seres humanos. Esse conteúdo é um presente ao nosso site pelo aprendizado, mas também aos internautas do Rio de Janeiro e torcedores tricolores, que tanto incentivam e acessa o nosso site. Muito Obrigado!
Também agradecemos ao Assessor de Imprensa do Fluminense via Nathan de Lima pelo profissionalismo e atendimento.

Gustavo Leal, obrigado pela oportunidade de fazer entrevista com um técnico tão conceituado no futebol, cujo nome é ligado ao Fluminense Sub-17, uma referência Mundial nas Categorias de Base.

Boa tarde, eu que agradeço os elogios e a oportunidade dessa conversa.


Sua experiência é vasta, envolvendo Quissamã profissional, o projeto Kaiserburg (Petrópolis) e as categorias de base do Fluminense. Existe alguma preferência pessoal entre trabalhar na Base ou no Profissional?
Independente de base ou profissional a minha grande paixão é pelo jogo, pelo desempenho dos meus atletas. Me dedico a extrair o máximo de cada equipe e cada atleta, superando seus limites.

Pode nos contar um pouco sobre as diferenças na elaboração de treinamento e gestão dos jogadores nas diferentes idades?
Sempre planejo meus treinos em função dos objetivos que quero atingir, sendo assim, os treinos variam em função da diferença de metas.

Na base meu planejamento é pautado no atleta e em seu desenvolvimento no todo, enquanto no profissional o planejamento é visando a preparação da equipe para alguma competição específica ou adversário.

Em relação a gestão dos atletas eu preciso me adaptar a cada faixa etária para saber qual linguajar utilizar, quais anseios terei que administrar e qual grau de exigência posso ter.

É totalmente diferente lidar com um atleta de 16 anos em formação, ansioso por seu primeiro contrato, e um atleta acima dos 30 anos em fase final de carreira com histórico de conquistas maiores do que as que ele pode almejar no atual cenário e preocupado com assuntos extra campo, como o bem estar de seus filhos, por exemplo.

Quando você estava no Sub-15 do Fluminense alcançou um alto período de invencibilidade e ainda conseguiu promover vários atletas para a categoria seguinte. Quais cuidados metodológicos são necessários para atingir essa performance, sem preconizar somente os resultados?
Preconizar desempenho, e o resultado virá a rebote. Meu principal objetivo era e é, desenvolver e potencializar as qualidades de cada atleta. Quando conseguimos unir todas essas características individuais no jogo coletivo, temos excelentes resultados.

Atualmente o dinamismo do futebol requer auxiliares e preparadores físicos com perfil pró ativo. Isso requer segurança do treinador para dar liberdade de trabalho a sua comissão. Como você gosta de dividir as tarefas?
Não só auxiliares e preparadores pró ativos, mas também treinadores engajados. Hoje minha rotina diária no clube envolve reuniões nos departamentos de fisiologia, captação, análise de desempenho, psicologia, médico e coordenação técnica, muita das vezes, inclusive, antes do treino começar.
Obviamente todos os departamentos têm profissionais competentes e com muito conhecimento no seu setor, porém o treinador precisa ter um conhecimento básico em todas essas áreas para entender e administrar da melhor maneira tudo que acontece ao seu redor.

O técnico tem essa função determinante de unir todas as diversas informações , para junto com suas observações de campo e seu feeling tomar decisões dentro das propostas metodológicas do clube.

O mesmo acontece em relação aos auxiliares e preparadores. Hoje planejo semanalmente junto com a minha comissão, cada sessão de treino da semana seguinte ,e todos precisam ter entendimento de tudo que está acontecendo desde o trabalho predominantemente físico até os princípios de jogo propostos.


Se citarmos Modelo de Jogo como uma forma mais global, qual é o padrão ideal que gosta de desenvolver?
No Fluminense nós seguimos alguns padrões metodológicos, mas temos liberdade dentro desses padrões. No entanto, tanto no Fluminense, como em outros clubes que trabalhei não tenho um único padrão definido, adapto de acordo com a cultura de cada região, clube, e de acordo com as peças que tenho. Porém gosto de propor o jogo, ter o controle das ações e do adversário, além disso gosto de gerar comportamentos que deixem meus atletas confortáveis e confiantes para executar suas ações.

No Exterior podemos perceber que há vários clubes com uma “escola” de futebol, conceitos pré-definidos e pedagógicos, mas no Brasil, nem sempre há essa identidade nos times, contudo, o Fluminense está entre as melhores bases do país. É possível dizer que há uma “marca” na forma de jogar do Tricolor? Qual seria esse diferencial?
Existe sim! Nossa metodologia de Xerém contempla isso. Hoje temos uma filosofia de jogo pautada em 6 pilares: Intensidade de jogo, Posse de bola objetiva, Movimentação Constante para criação de espaços, Busca constante para retomada da bola, Jogo que priorize a bola no chão com passes e dribles ,e o Fair Play. E quando vamos captar nossos atletas buscamos jogadores com essas características. Acredito serem esses os nossos diferenciais.

Em sua opinião, sendo as categorias de Base uma grande escola, quais conteúdos são interessantes ensinar? Eles podem ser divididos por categoria e em aspectos coletivos e individuais?
Acredito que todos os conteúdos que envolvem o futebol. São em média de 8 a 10 anos de formação, é tempo suficiente para trabalharmos. Repare que não falei do jogo, mas do futebol no geral com todos seus aspectos culturais, sociais e éticos. O futebol é muito mais que um jogo e parafraseando um famoso livro, o futebol explica o mundo.

Fizemos uma matéria elogiando o projeto do Fluminense que se aproximou do futebol europeu ao elaborar um planejamento junto a um clube da Eslováquia. O escudo do clube brasileiro está inclusive no uniforme europeu. Pode nos contar um pouco sobre essa ideia? Os atletas da base têm a motivação desse intercâmbio futebolístico?
Não sou a pessoa mais indicada para falar do assunto. Os profissionais que encabeçam o projeto são Marcelo Teixeira, Marcel Gianechinni e Marco Manso, e com certeza, abordam o tema com muito mais propriedade.
Na minha opinião o projeto é excelente, e com o pioneirismo característico do Fluminense ele nos projeta a voos mais altos.

Hoje nosso lema em Xerém, idealizado por nosso gerente da base Marcelo Teixeira, é: “Faça uma pessoa melhor e terá um atleta melhor” e o Flu-Samorin nos possibilita isso, é um grande diferencial para que nossos profissionais e atletas possam aprimorar e fechar seu desenvolvimento como cidadão e atleta.

A vivência de outras culturas dentro e fora do futebol nos leva a um novo patamar. Hoje no Brasil não consigo ver nada parecido como esse projeto.


Já que citamos algumas palavras chaves: Modelo de Jogo, Fluminense, Futebol Europeu, Identidade, Padrão, gostaríamos de saber quais cuidados são necessários para um atleta ou equipe não ficar “robótica”, isto é, presa a “cópias” de ideias ou a padrões preestabelecidos limitantes?
Acredito que assim como respondi anteriormente, todas essas práticas precisam ser pautadas no atleta. Ele é o mais importante; nossos meninos não são europeus.
Podemos e devemos olhar para fora e ver o que acontece por lá e até importarmos algo se acharmos necessário, no entanto não podemos, nem devemos fugir as nossas características do drible, da incrível capacidade de improvisação e da criatividade que marca nosso futebol e nossos atletas.

Qualquer outro princípio precisa vir para somar a esses e não em detrimento desses. No início do ano estive na Bélgica e na Inglaterra, e conversando com os profissionais de lá , percebi que todos procuram o que temos aqui, o atleta com todas essas qualidades que citei. E aqui deixo um questionamento: Será que temos estimulado essas qualidades? Quando nosso atleta, por exemplo, chega a linha de fundo no 1 x 1, pedimos para que ele seja ousado e drible ou que seja cauteloso e procure um apoio para circular a bola? Estamos deixando eles serem criativos?


O calendário permite ao Fluminense participar de várias competições na Base. Pode nos contar um pouco da experiência adquirida nesses torneios que o clube disputa?
Esses torneios são de total valia e alta importância não só para os atletas como para os treinadores. Neles podemos vivenciar a experiência de jogarmos contra diferentes escolas, tanto do Brasil, como do exterior. Esse desafio de resolver novas situações problema é muito importante no desenvolvimento de todos.

Para encerrar, sabemos que o futebol carioca está entre os melhores do Brasil, pode nos contar um pouco as qualidades dos jogadores dessa região? Sabemos que o dom pode ser desenvolvido, mas parece que há uma predisposição “genética” para o talento no Rio de Janeiro.
Acredito que a cultura do carioca contribui muito para isso – o samba, o funk, as comunidades onde ainda se preservam os cada vez mais escassos campos de pelada, o futebol na praia, entre outros, são na minha visão, grandes contribuintes para o surgimento desses talentos. Além disso assim como em São Paulo e em outros grandes centros do país, a concorrência entre os clubes do mesmo estado faz com que os profissionais e o clube, como um todo, esteja sempre evoluindo e se desenvolvendo para não ficar para trás do rival, e assim fortalecendo o nosso futebol brasileiro.

 

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