Bino Maçães – A representação em grande qualidade dos Treinadores Portugueses

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Mais uma vez recorremos aos ensinamentos de Portugal e todo conteúdo que seus cidadãos podem propiciar através das entrevistas. Nesse mês, Bino Maçães, uma referência como treinador e ex-atleta, nos conta um pouco sobre sua história, metodologia de treino e progressão de carreira!

É importante salientar que foram 6 anos como um dos comandantes do FC Porto, envolvendo a mais pura exigência e maestria a nível de desenvolvimento individual e coletivo. Na visão do Mister Bino Maçães, montar equipes com imprevisibilidade ofensiva, enriquecendo as tomadas de decisões e a adaptação ou reação dos treinadores as adversidades desse desporto são “ingredientes” interessantes para o sucesso.

Bino Maçães, agradecemos a oportunidade da entrevista. Falar contigo é uma grande honra para esse portal, assim como para todos os leitores!

Como jogador teve várias épocas bem-sucedidas ao passar por clubes como Rio Ave, Salgueiros, Belenenses, FC Porto, Sporting, Tenerife, Marítimo e Moreirense e convocações a seleção de Portugal. Os títulos foram 4 Ligas Portuguesas, 2 Supertaças e um Europeu Sub-16. Quais são as melhores recordações desses tempos? Algum jogo inesquecível?
Agora, à distância de 8 anos (que terminei a carreira de jogador) sinto que todos os dias dessa etapa foram muito prazerosos, tive o privilégio de exercer a profissão que um dia sonhei e que sempre quis, com grande paixão e dedicação, mas é uma pena que acabe tão rápido. Tive vários momentos marcantes como a minha primeira internacionalização Sub-16, a primeira vez que fui chamado para a seleção principal, os vários campeonatos ganhos, participar na Liga dos Campeões e alguns golos. Não tive um jogo que me marcasse especialmente.

Acredita que toda essa vivência como jogador foi positiva para alcançares sucesso como treinador?
Acredito que é sem dúvida uma mais valia, mas não penso que ter sido jogador seja fundamental para ser um treinador de sucesso. A mais valia a que me refiro é, saber o que pensam e como hajem/reagem os jogadores nos diversos contextos, a capacidade de corrigir e debater aspectos individuais que por mim também foram vividos, perceber a intencionalidade das suas ações, assim como perceber através da postura corporal se devo ou quando devo interferir e abordar algum jogador individualmente ou coletivamente, porque todos somos diferentes e eu estive em muitos grupos de trabalho ao longo da minha carreira.

Portugal tem formado os melhores técnicos do Mundo, em sua opinião, qual o “segredo” desse sucesso? São os cursos preparatórios, a forma da elaboração de treinos, a periodização ou há ainda algo mais?
Não tenho dúvidas de que é tudo isso que referiu e um grande potencial de trabalho, organização e adaptação ao meio em que está inserido, assim como uma forte capacidade de reagir às adversidades.

Sabemos que o Norte de Portugal é o berço da Periodização Tática. Atualmente, muitos países têm falado sobre o assunto sem “propriedade”, abordando uma elaboração de treinos que envolvem princípios de áreas diferentes. Afinal, pode nos definir e explicar, por favor, como funciona a Periodização Tática pura?
Não me atrevo a faze-lo, até pela complexidade linguística aplicada. No meu entendimento  e de uma forma simples o modelo de jogo é o referencial de todo o processo e a dimensão tática é o guia dos exercícios de treino, fazendo emergir os restantes fatores do rendimento (físico, técnico e psicológico).  No microciclo também existe espaço para os exercícios específicos, ou seja, treinamos o nosso jogar em todos os momentos, os grandes princípios e os sub princípios.

Percebemos nas 6 temporadas como treinador do Futebol Clube do Porto que suas equipas tem um “DNA” agressivo, sempre a fazer muitos golos, mas sem desorganizar a defesa. Como essa regularidade é possível?
Primeiro, ter bons jogadores (inteligentes e disponíveis para aprender), depois trabalhar o que pretendemos que seja o nosso jogar em todos os momentos sempre em consonância com as características dos nossos atletas.
Procuramos que haja diversidade e imprevisibilidade nas ações com bola, o que obriga a uma dinâmica coletiva de posicionamentos que os jogadores devem respeitar, para conseguir o equilíbrio necessário, quer para uma melhor circulação da bola, seja para uma eficaz reação à perda desta ou reposicionamento defensivo.
Queremos criar situações de vantagem numérica se for possível e aproveitar os espaços livres tanto em largura, como profundidade. Também gosto que no último terço sejamos objetivos. Sem bola quero maioritariamente um bloco subido e pressão alta.


Ao falarmos de FC Porto, sempre é interessante mencionar o Modelo de Jogo bem definido. Quais eram as exigências de um clube dessa grandeza e como o treinador podia colocar em prática seus conhecimentos, visto que o futebol apresentado era sempre rico, não existindo limitações?
As exigências eram, um jogo dominador, dinâmico e direcionado para a evolução dos nossos jogadores.
Sempre tive liberdade para desenvolver as minhas ideias, ainda que assentes em pressupostos transversais a todos os escalões respeitando a identidade e história do clube.
É muito interessante essa observação e agradeço, porque existe a ideia de que uma equipa está bem trabalhada quando tem jogadas padronizadas claramente identificáveis desde a sua construção até à finalização, mas eu pretendo mais do que “isso”. Quero que a os jogadores tenham e se sintam confortáveis com várias alternativas, seja num pontapé de baliza ou até num lançamento lateral.
É essa riqueza tática que me atrai e creio ser importante na formação de um jogador; diversidade de ações é igual a uma melhor tomada de decisão e no futebol moderno para à velocidade que se joga, quem tiver esta capacidade, com certeza estará mais preparado para o futebol profissional a um nível alto.


Tu tens um perfil interessante. Acreditamos que terá bons feitos ao comandar clubes na categoria Senior. Esses bons resultados aconteceram também no FCP a nível de formação individual e coletiva nas mais variadas idades. Existe algum cuidado ou tipo de preparo diferente para treinamentos e relacionamentos nas faixas etárias distintas?
Eu passei pelos escalões de U14, U15, U16 e U17. Nós (treinadores) devemos perceber se temos o perfil indicado para determinado escalão, creio que essa autoavaliação é fundamental para estarmos confortáveis e que esse sentimento passe para os jogadores, ou seja tem que haver uma identificação da realidade em que estamos inseridos.
Devemos ter atenção naquilo que pedimos, para ver se ajustamos ao que os jogadores nos podem dar naquele escalão, perceber os diferentes estados maturacionais, ajustar exercícios, repetições, tempos das atividades.
A forma de intervenção (mais pedagógica U14 – mais rendimento U17) inerente a todos os escalões é a atitude competitiva, cooperação, superação, concentração, saber ouvir e querer melhorar.


Para chegar onde chegou, hoje tu és uma referência como treinador, houve alguma inspiração? Também gostaríamos de saber como passa seu tempo diário de preparação e estudos nessa profissão.
Enquanto jogador já tinha tirado o Curso de Treinador – grau I e II e após terminar a carreira tirei o Grau III e UEFA PRO.
Segui as minhas convicções, acredito que sou agora como treinador também o reflexo das minhas características, personalidade (qualidades/defeitos), e a forma como vivenciei a minha carreira como jogador. Acrescentei alguma agressividade ao treinador (risos), sempre gostei de valorizar a bola, o coletivo e a criatividade.
Não me inspiro ou me inspirei em determinado Treinador, como tive vários ao longo da minha carreira, fui fazendo a triagem do que gostei e daquilo que não me interessava mesmo. Depois, vou “bebendo” de vários treinadores que me identifico mais.
Tirando os treinadores que estão nos grandes colossos mundiais, gosto de ver o Napoli do Maurizio Sarri, o Shakhtar do Paulo Fonseca, mas também o Atlético do Diego Simeone, por razões distintas.


Foi uma decisão difícil, deixar o Porto para um desafio nas camadas seniores? O que espera encontrar em um futuro próximo?
Sim, difícil mas ponderada e espero que acertada. Difícil porque 6 anos, não são 6 dias, estava num clube com enorme história e prestígio,  com forte organização e condições de trabalho na formação, onde sempre fui muito bem tratado, respeitado, onde cresci como jogador e agora como treinador.
Chegou o momento de dar asas à minha ambição de treinar no futebol profissional. Estou preparado para este novo desafio, sabendo que vou encontrar uma realidade mais pautada nos resultados, mas que me seduz pelas mesmas razões que expliquei em respostas anteriores – formar uma equipa muito competitiva, potenciar jogadores e atingir objetivos coletivos /individuais.

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