A ascensão meteórica de Rui Borges e a nova face europeia do Sporting

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Foi uma noite de terça-feira que ficará gravada na memória de Alvalade. Estamos na penúltima jornada da fase de liga da Liga dos Campeões e o adversário não é outro senão o campeão francês, o Paris Saint-Germain. O Sporting adianta-se no marcador, mas a vantagem é anulada por um remate letal de Khvicha Kvaratskhelia, que coloca a bola no ângulo superior. Contudo, a esperança leonina não esmoreceu. Ao cair do pano, aos 90 minutos, Luis Suárez — não o uruguaio, mas o reforço dos leões — cabeceia para o golo da vitória. Na linha lateral, Rui Borges corre desenfreadamente em celebração.

Este episódio resume a atual realidade do treinador do Sporting CP, um homem que, há apenas sete anos, orientava equipas no futebol amador. Hoje, aos 44 anos, superou Luis Enrique, eleito o Treinador do Ano da FIFA em 2025, e colocou o clube verde e branco na luta direta pelos oito primeiros lugares da competição milionária, um feito que garantiria o acesso direto aos oitavos de final.

O tempo medido num Casio

Com o Sporting na 10.ª posição da tabela, somando 13 pontos — os mesmos que outros sete clubes —, a equipa prepara-se agora para uma curta deslocação a Espanha. O objetivo diante do Athletic Club é igualar a melhor prestação de sempre do clube na Champions. Nesta viagem, Rui Borges poderia ser perdoado se se deixasse levar pela nostalgia.

Para recordar as suas origens, o técnico não precisa de olhar longe; basta olhar para o pulso. Não encontrará um Rolex ou um Cartier, mas sim um relógio Casio. A peça custou-lhe menos de 20 euros quando começou a treinar no futebol amador, no SC Mirandela, clube da sua terra natal onde pendurou as botas como jogador. Continua a usá-lo hoje como um símbolo de onde veio: uma pequena cidade no interior norte de Portugal, cuja população total é pouco mais de metade dos 51.400 adeptos que encheram o estádio para ver a vitória sobre o PSG.

De Mirandela para a ribalta

Embora Borges enfrente agora a elite europeia na capital, as suas raízes transmontanas moldaram o seu carácter. “Acompanho-o desde que ele tinha 10 anos”, revela Valdemar, diretor desportivo do Mirandela, ao The Athletic. Borges fez parte da formação do clube durante uma década e teve três passagens pela equipa sénior antes de terminar a carreira.

Valdemar, que assumiu a direção desportiva em 2014, teve a confiança necessária para entregar o comando técnico a um Rui Borges de 36 anos, na sua primeira experiência no banco. “Vi-o crescer. Ele sabia exatamente o que queria. Muito determinado e com uma enorme vontade de ganhar”, recorda o dirigente. “Já naquela altura era um verdadeiro líder. Tinha um dom natural para o treino e para a liderança. Era muito inteligente, estudava os adversários cuidadosamente, mas também prestava atenção ao que as melhores equipas faziam. Conseguia unir os jogadores, tê-los do seu lado, a correr por ele.”

Liderança pelo exemplo e honestidade

A capacidade de motivar um balneário é frequentemente citada no futebol, mas Borges consegue essa adesão através da transparência. Jorge Fernandes, que foi treinado por Borges no Vitória SC na época passada, atesta essa qualidade: “Houve alturas em que o ‘míster’ não me punha a jogar, mas nesses momentos mantinha a mesma atitude e respeito por mim. Foi sempre honesto e direto, o que é uma memória especial porque isso nem sempre acontece no futebol.”

O central recorda ainda um episódio marcante: “Quando desloquei o ombro, ele elogiou-me numa conferência de imprensa e isso significou muito. Disse que eu era ‘um cavalo’, para elogiar a minha ética de trabalho, e senti-me honrado”. Curiosamente, esta alcunha é partilhada por Declan Rice, do Arsenal, dada pelos seus colegas pela incansável capacidade física.

A herança do ataque e as movimentações de mercado

O sucesso atual de Rui Borges, que assumiu a pesada tarefa de substituir Rúben Amorim, assenta também num planeamento de época que teve os seus desafios, particularmente na frente de ataque. A construção do plantel que hoje brilha na Europa passou por momentos de incerteza e redefinição de alvos.

Antes da estabilização da equipa, o dossiê do ponta de lança foi um dos mais complexos em Alvalade. Inicialmente, o grego Fotis Ioannidis foi a prioridade, mas as exigências financeiras do Panathinaikos tornaram o negócio incomportável, obrigando a estrutura leonina a virar-se para outras opções. Foi nesse contexto que surgiu o nome de Conrad Harder.

O jovem dinamarquês do Nordsjaelland, de apenas 19 anos, entrou no radar do Sporting como a alternativa viável para a posição mais adiantada do terreno. Apesar de, na altura, existirem dúvidas sobre se Harder seria uma das opções imediatas “em cima da mesa” para reforçar o ataque, a realidade do mercado ditou a mudança de agulha. Com um registo de dois golos em seis jogos no campeonato dinamarquês naquela temporada, Harder representou a aposta num perfil diferente, numa transição de alvo que foi, figurativamente, um “passe” de Ioannidis para o jovem nórdico.

Hoje, com as dores de crescimento do mercado ultrapassadas e uma liderança técnica sólida, o Sporting de Rui Borges olha de frente para os gigantes europeus, provando que a transição de um banco amador em Trás-os-Montes para as noites de glória na Liga dos Campeões é possível com competência e carácter.